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"Se você treme de indignação perante uma injustiça no mundo, então somos companheiros". (Che Guevara)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Exceção na região, ameaçados por hidrelétrica de Marabá dizem "não" à Carajás

Não é só a hidrelétrica de Belo Monte que é alvo de protestos de comunidades ribeirinhas no Pará. No sudeste do Estado, milhares de famílias estão apreensivas com construção da usina de Marabá, no rio Tocantins, prevista para ficar pronta em 2018.
Entre os afetados estão os cerca de mil moradores da Vila Espírito Santo (a 30 km do centro de Marabá), comunidade tradicional que deverá ser alagada com a construção da hidrelétrica.
A vila foi o único lugar de todo o sudeste do Pará que a reportagem encontrou eleitores contrários à criação do Estado de Carajás. Na comunidade, a maioria dos moradores é “filho da região”, diferentemente do restante do sudeste paraense.
“Se dividir, vai piorar, principalmente para nós, que somos fracos. Quem vota ‘sim’ é porque tem alguma saída se a coisa der errada com a divisão. Agora, nós não temos para onde ir”, afirma o borracheiro e pescador Antonio Feitosa, 34, morador de uma ilha do rio Tocantins.
O mecânico industrial Wilson Almeida da Silva, 30, presidente da associação de moradores da vila, também desconfia da divisão. “Eu acho melhor ficar como está. Alguns dizem que a divisão trará mais verba para cá, mas isso não entra na minha cabeça”, diz.
Manoel Caetano de Jesus, 74, que deu as fazendas de gado aos filhos e foi morar na beira do rio Tocantins, defende a criação de Carajás. “Falavam que se dividisse Goiás, o Bico do Papagaio [extremo norte de Tocantins] não iria valer nada, mas não é que ficou bom lá?”, afirma o pecuarista, natural de Patos (MG).

Comunidade vai ser atingida por usina de Marabá

Foto 1 de 10 - Não é só a hidrelétrica de Belo Monte que é alvo de protestos de comunidades ribeirinhas no Pará. No sudeste do Estado, milhares de famílias estão apreensivas com construção da usina de Marabá, no rio Tocantins, prevista para ficar pronta em 2016. Entre os afetados estão os cerca de mil moradores da Vila Espírito Santo (foto), comunidade tradicional que deverá ser alagada com a construção da hidrelétrica Guilherme Balza/UOL

40 mil atingidos

O que é consenso na vila é o temor quanto à construção da hidrelétrica, que, segundo o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) irá afetar 40 mil pessoas em nove municípios do Pará, Maranhão e Tocantins, entre eles São João do Araguaia, cidade histórica que foi cenário da Guerrilha do Araguaia. A Eletronorte, responsável pela obra, afirma que não há como mensurar a quantidade de atingidos em razão de a obra estar na fase de estudos de viabilidade.

Por Guilherme Balza 
Fonte: UOL Notícias

Navio da Vale que podia afundar é removido de porto no Maranhão




O navio Vale Beijing, que estava ancorado no terminal marítimo de Ponta da Madeira (MA) com risco de afundar, acaba de ser removido para uma área de fundeio localizada na Baía de São Marcos, litoral maranhense, onde será reparado, informou nesta terça-feira o capitão Nelson Calmon Bahia, responsável pela Capitania dos Portos do Maranhão.

O navio, com capacidade para 400 mil toneladas, é um dos maiores graneleiros do mundo e estava ancorado em Ponta da Madeira, de propriedade da Vale, desde a última sexta-feira, quando chegou ao Brasil. Quando estava sendo carregado com minério de ferro, um problema na embarcação ainda não identificado provocou uma rachadura no tanque do lastro, ameaçando o equilíbrio do navio. Não houve vazamento do minério.

Fonte: Conversa Afiada

Marighella, 100 anos


A exibição nesta segunda-feira (05) do documentário Mariguella, no Cine Glauber Rocha, em Salvador (BA), marcará as comemorações do centenário de nascimento de Carlos Marighella em sua terra natal. O guerrilheiro, assassinado na Alameda Casa Branca, em São Paulo, em 1969, tem sua convulsiva história relembrada em filme dirigido por sua sobrinha, Isa Grinspum Ferraz. Ano que vem, a Companhia das Letras lançará alentada biografia de Marighella, escrita pelo jornalista (e ex-ombudsman da Folha de S. Paulo) Mário Magalhães.  
Depois da sessão comemorativa no histórico cinema da Praça Castro Alves soteropolitana, Mariguella ganhará sessão em praça pública de Cachoeira, no Recôncavo Baiano (dia 7), participará dos festivais Aruanda (na Paraíba) e Havana (em Cuba). Em 2012, fará o circuito europeu de festivais e chegará ao circuito comercial brasileiro.   
Mário Magalhães, que atuou como “consultor especial” do filme de Isa Ferraz, está finalizando a biografia de Marighela e promete trazer “muitas revelações” aos leitores. Em nove anos de trabalho, o pesquisador ouviu 235 entrevistados, consultou quase 50 mil páginas de documentos, acessou 40 arquivos públicos e privados e bibliografia superior a 600 livros. Modesto, Magalhães diz que o crédito como “consultor especial” no documentário Mariguella foi fruto da “generosidade de Isa” e o surpreendeu. Para ele, o resultado cinematográfico do mergulho da cineasta na vida do tio-guerrilheiro “é arriscado e brilhante”.  
Marighella chega ao Rio de Janeiro após ser libertado pela anistia de abril de 1945 - Foto: Reprodução
O maior desafio de Isa Ferraz, ao construir um documentário de 100 minutos sobre Carlos Marighella, foi a ausência de imagens em movimento (filmes) do retratado. Ele, que viveu boa parte de sua vida na clandestinidade, deixou, também, poucas fotos. Quase nada se comparado, por exemplo, com Che Guevara, fotografado e filmado no mundo inteiro. Há, pelo menos, meia centena de filmes sobre o argentino- cubano. Sobre Marighela, há uma média- metragem de Silvio Tendler e agora o longa de Isa. Para resolver o problema, a cineasta recorreu a memórias de infância, colheu 27 depoimentos (escolhidos entre os 235 presentes no livro de Magalhães) e ao uso criativo e abundante do próprio cinema (documental e ficcional, brasileiro e estrangeiro).  
Isa somou imagens de filmes de Godard (Cine Tract 23), Agnes Varda (Panteras Negras), Cris Marker (On Vos Parle de Brésil), Gianni Minà (Che 40 Anos), Frank Capra (Por que Lutamos a Batalha da Rússia) e recorreu a trechos do épico Batalha de Argel, de Gilo Pontecorvo, filme que marcou profundamente o imaginário cinéfilo-politizado dos anos de 1960.  
Entre os brasileiros, o trecho de filme mais vibrante (e só poderia ser assim, num filme de mirada feminina) traz Dina Sfat, magnífica e imantada de rara energia, como a guerrilheira Cy, do Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade. Nada mais adequado para evocar a loucura criativa e a euforia política daquela época. E para realizar sonho de Isa, que – confessa – “na adolescência, sonhava em ser Dina Sfat”. 
Além de Macunaíma, a cineasta cita, em sua busca de climas do período, O Caso dos Irmãos Naves, de Luiz Sérgio Person (neste filme, fala-se de tortura a presos comuns; em Mariguella, as imagens representam a tortura aos encarcerados políticos do regime militar), Barravento, Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe (os três de Glauber), O Grito da Terra e Manhã Cinzenta (ambos de Olney São Paulo), Assalto ao Trem Pagador, de Roberto Farias, Estudantes – Condição ou Revolta, de Peter Overbeck (fotógrafo de O Bandido da Luz Vermelha), e muitos trechos de cine jornais.
Ressignificação de imagens
A cineasta Isa Ferraz - Foto: Divulgação
Isa Ferraz, uma cinéfila apaixonada (que frequentou cineclubes como o do Colégio Equipe, o da GV, o Cine Biju, além de cinematecas brasileiras e estrangeiras) conta que desde que começou a sonhar com o filme Marighela (o primeiro roteiro foi registrado na Biblioteca Nacional, em 1986) o concebeu como um tecido que somasse filmes e mais filmes.
Ela já havia recorrido ao cinema (a trechos de filmes), em 2000, quando fizera O Povo Brasileiro, a partir de idéias de Darcy Ribeiro. “Sabia que a utilização de trechos de filmes num documentário sobre Carlos Marighella, além de trazer estes filmes para novo contato com os jovens, permitiria que fossem ressignificados”. Afinal, “cada plano fílmico tem sua sabedoria, sua carga significativa”. Um trecho de Macunaíma (ou de Caso dos Irmãos Naves) dentro de um filme sobre Marighella” – pondera – “ganha novas significações e isto me estimula muito”. A cineasta faz questão de lembrar que contou com a inestimável colaboração do pesquisador Remier Lion Rocha. “Ele tem uma cultura cinematográfica espantosa e me ajudou muito”. 
Boa parte do orçamento do filme foi consumida na aquisição de direitos autorais por uso de imagens e de composições musicais. “Jean-Luc Godard” – conta Isa – “me cedeu de graça o trecho de Cine Tract 23”. Nunca é demais lembrar que o autor de Pierrot Le Fou entende que os filmes são patrimônios públicos (é famosa sua frase “o autor não tem direitos, mas sim obrigações”). 
Xurupitó
Carlos Marighella foi um radical de esquerda, que abraçou a luta armada. Morreu fuzilado, aos 58 anos. Baiano, filho de pai anarquista italiano e mãe descendente de escravos, ele cresceu numa Bahia efervescente. O filme leva isto em conta. E tem muito humor. Dá ao escritor Antônio Risério o direito de evocar a “baianidade” daquele mulato marxista, que nunca gostou de cara fechada. Ao contrário – o fi lme mostra isso com vigor – ele tinha xurupitó. 
Uma peça do teatro de revista da época, chamada É do Xurupitó, descrevia aqueles que eram possuidores de tal característica. Isa conta que deve “a uma tirada de Tia Iara (Gouveia)”, irmã afetiva da dona Clara Charf, viúva do guerrilheiro, as memórias do “xurupitó” do tio evocadas no fi lme. “Ter xurupitó” – explica Mário Magalhães – “significa que Marighella tinha um encanto especial”. Cativava os que com ele conviviam. 
                    Marighella - Foto: Reprodução
Poeta, amante do cinema, leitor voraz, o baiano nunca cultivou imagem sisuda, comum a boa parte da militância comunista de seu tempo. Era, como bem lembra Antônio Risério, um comunista à moda baiana.
O filme, além das memórias de Isa e das imagens de filmes, traz ótimos depoimentos do filho Carlos Augusto Marighella (xerox do pai), do escritor Antonio Candido, dos ex-guerrilheiros Takao Nakano e Antonio Carlos Fom e, principalmente, da viúva Clara Charf (corajosa, comovente, jamais piegas). Clara amou um “não-judeu, preto e comunista” (para desespero total do pai judeu). E Isa Ferraz não se esquece de dar voz a outras mulheres que participaram da luta política, como a terapeuta Eliane Toscano, a jornalista Rose Nogueira e Guiomar Silva Lopes, a última militante a manter um “ponto” (de encontro) com Marighella.
Dois astros black contribuem com seus talentos para amplificar as qualidades de Marighela. O baiano Lázaro Ramos lê os versos do poeta-guerrilheiro (em crônica semanal em O Globo, José Miguel Wisnik detectou qualidade literária em decassílabos sáficos do jovem Marighella, escritos em 1939 e dedicados à Liberdade). Mano Brown fecha a narrativa com um rap arrebatador, que já mereceu mais de 100 mil acessos no Youtube.
Dois momentos da vida do guerrilheiro
Tiroteio na matinê – O cinema inscreveu- se como cicatriz no corpo do guerrilheiro. Em 1964, ele se refugiou na matinê de uma sala carioca, para fugir de militares que o perseguiam. Não teve jeito. Foi localizado e baleado. Tudo foi documentado por um fotógrafo do Correio da Manhã, que também estava no cinema. Uma foto, presente no documentário, mostra cicatriz no corpo do guerrilheiro deixada pela bala. Mário Magalhães conta que na entrada da galeria, onde ficava o Cine Eskye-Tijuca, exibia-se o anúncio da comédia Rifi fi no Safári, estrelada por Bob Hope e Anita Ekberg. O anuncio publicitário do filme prometia “Um explorador de araque na África com a mais sensacional das louras”.
Rádio Nacional no Ar – Outro momento revelador e impactante na vida de Carlos Marighella registra a audácia de um técnico da Rádio Nacional. Ele trabalhava em programa policial de enorme audiência, que a emissora irradiava às nove horas da manhã. Pois foi no meio deste programa, que o técnico inseriu discurso-convocação de Carlos Marighella ao povo brasileiro para que se aliasse às forças que combatiam a ditadura militar. Quanta ousadia. Mário Magalhães registra, em seu livro: “15 de agosto de 1969: um comando guerrilheiro tomou os transmissores da Rádio Nacional em Piraporinha e colocou para tocar uma fi ta na qual um militante lia um manifesto escrito por Carlos Marighella”.

Por Maria do Rosário Caetano,
Fonte: Brasil de Fato

Farra da Copa: agora querem meter a mão no FGTS

Há duas semanas foi aprovado no senado o Projeto de Lei de Conversão (PLV) 29/11, cuja origem é a Medida Provisória nº 540/11. O PL, que dispõe sobre questões tributárias, terminou incluindo a autorização para o uso de recursos do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) em obras da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016. Mais uma vez estamos diante da possibilidade de uma farra justificada em nome desses megaeventos. 
O PL está agora na mesa da presidenta Dilma Rousseff para sanção. Jorge Hereda, presidente da Caixa Econômica (que gerencia o FGTS), é contrário à medida. Com razão. Os recursos do fundo são hoje utilizados para financiar programas habitacionais, como o Minha Casa, Minha Vida, além de obras de saneamento. Não faz o menor sentido usar estes recursos em operações urbanas consorciadas de obras de mobilidade e transporte, infraestrutura aeroportuária, empreendimentos hoteleiros e comerciais, como define o PL.
Para quem nunca ouviu falar, as operações urbanas consorciadas de obras de mobilidade e transporte podem ser, por exemplo, a utilização de áreas lindeiras à linha de transporte urbano para grandes empreendimentos imobiliários realizados pela iniciativa privada, muitas vezes desrespeitando, inclusive, o próprio planejamento local.
Vale lembrar que os projetos de mobilidade já contam com recursos do governo federal através do PAC da Mobilidade. Os estádios já estão sendo construídos ou reformados pela iniciativa privada com recursos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Essa aprovação do uso dos recursos de FGTS, na surdina, só pode ser para financiar obras não incluídas na Matriz de Responsabilidades da Copa, que é o único documento oficial que prevê obras ligadas à Copa nas cidades. O resto são rumores.
Já se calcula que, num curto a médio prazo, se os programas habitacionais e de saneamento continuarem no ritmo que estão hoje, os recursos do FGTS não serão suficientes para mantê-los, ou seja, será necessário buscar outras formas de financiamento. Mas o grande problema dessa medida, além de ter sido aprovada de maneira oportunista numa Lei que nada tem a ver com a Copa e as Olimpíadas, é permitir o uso de um crédito que é dos trabalhadores brasileiros, com juros muito baixos, para financiar a farra da Copa.

Por Raquel Rolnik
Fonte: Brasil de Fato 

Senado aprova substitutivo ao projeto do novo Código Florestal

O Senado aprovou o substitutivo do senador Jorge Viana (PT-AC) para o projeto do novo Código Florestal, com 58 votos favoráveis e 8 contrários, depois de cerca de cinco horas de discussão. O texto de Viana é polêmico principalmente por conceder anistia aos pequenos produtores rurais que desmataram até 2008 e a possibilidade de os grandes converterem suas multas em ações de reflorestamento.
O relator também fez concessões à agricultura e a pecuária, ampliando de 25 graus (º) para 45º a inclinação máxima dos morros para essas atividades. E ainda permitiu a manutenção das fazendas em beiras de rios. 
Em discurso na tribuna do plenário, Jorge Viana disse que o novo código “estende a mão” aos produtores rurais que querem sair da ilegalidade, e também ajuda a superar a pobreza no campo.
O senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), votou contra o texto. Para ele, o projeto não colabora com a diminuição da pobreza e, ao contrário, beneficia apenas os grandes produtores rurais. “Está se lembrando muito da comida na mesa dos brasileiros e está se esquecendo de quem põe essa comida lá. Hoje, 73% do que nós comemos vem da agricultura familiar e eu não estou vendo ninguém lembrar desses agricultores”. 
Depois da aprovação do substitutivo, mais de cem emendas foram apresentadas à matéria e precisam ser analisadas ainda hoje (6) pelos senadores. Para isso, eles fizeram um acordo de procedimento que permitirá votar e rejeitar a maioria, que for considerada prejudicada, em bloco. Outros destaques, a maior parte de senadores da Região Norte e envolvidos com a causa ambiental, ainda deverão ser votados separadamente.

Por Mariana Jungmann
Fonte: Agência Brasil

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

‘O SUS que se quer é o SUS constitucional’

Relatório da Câmara dos Deputados confirma que o investimento em saúde no Brasil é muito abaixo da média dos países com sistemas universais, um dos motivos que impedem a consolidação do SUS como está previsto na Constituição brasileira.
O gasto público com saúde no Brasil representa 3,6% do Produto Interno Bruto (PIB). A média internacional, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), é de 5,5%. O país está, portanto, investindo em saúde um terço a menos do que a média mundial. No total, considerando os investimentos públicos e privados, 8,4% do PIB vão para a saúde. Entretanto, 55% desse montante representa gastos privados e beneficia R$ 46 milhões de conveniados, enquanto os 45% restantes são públicos e favorecem todos os 190 milhões de brasileiros. Os dados mostram que há um desequilíbrio nessa balança: o SUS, que é universal, para todos, tem menos recursos do que os planos e seguros privados, que favorecem cerca de 24% da população brasileira. Esse diagnóstico está presente no relatório da subcomissão especial da Câmara dos Deputados destinada a tratar do financiamento, reestruturação da organização e funcionamento do SUS. O relatório, de autoria do deputado federal Rogério Carvalho (PT-SE), foi aprovado recentemente pela Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara e apresenta propostas para o problema do subfinanciamento do SUS e melhor funcionamento do Sistema.
"O mérito da tese e da proposta da Subcomissão é ter o SUS constitucional como ponto de partida e como ponto de chegada. Não se trata de plano ideal, significando utopia, mera fraseologia ou apego ao legalismo. SUS constitucional como ponto de partida significa que é por meio do texto constitucional que se constrói o sistema de saúde do Brasil. O direito à saúde é reconhecido, incorporado e exigido estatalmente, porque ali estão contidas quais são as bases que sustentam as ações e serviços de saúde. É a Constituição que diz que as ações e serviços de saúde são de acesso universal e igualitário, de relevância pública, visam reduzir riscos de doenças e outros agravos, integram uma rede regionalizada e hierarquizada, constituem um sistema único", pontua o relatório. O texto continua explicando por que o SUS constitucional é o ponto de chegada do relatório: "porque requer a realização do direito à saúde, ou seja, a sua integração ao vivenciar e agir dos cidadãos e agentes públicos na forma de direitos e deveres recíprocos, e ser introduzida como política de Estado mediante atuação do Governo. Ora, havendo bloqueios do processo de concretização do SUS por fatores políticos, econômicos e culturais, a reprodução do SUS constitucional não se realiza", alerta o documento.
O relatório traz diversos dados que comprovam o quanto o país está longe da realização do SUS constitucional. "Dados apresentados pelo Ministério da Saúde [em 2007] indicaram defasagens na tabela de remuneração do SUS e estimaram que havia 13 milhões de hipertensos que não estavam sendo tratados e acompanhados adequadamente e 4,5 milhões de diabéticos na mesma situação. Também foi destacado que: 25% da população portadora de doenças negligenciadas, como tuberculose, malária, hanseníase, entre outras, não teriam acesso regular ao sistema de saúde; 47% das gestantes não cumpririam o mínimo de sete consultas de pré-natal e 90 mil brasileiros com diagnóstico de câncer estabelecido fariam cirurgia e quimioterapia, mas não teriam acesso à radioterapia pela insuficiência de capacidade instalada. Além disso, é preciso considerar que o acesso da população brasileira aos serviços do SUS não se dá de modo uniforme, pois há desigualdades regionais", detalha o documento.
Os dados apontam ainda o Brasil na 143ª posição mundial em termos de gastos públicos com a saúde, situando-se no grupo de 25% de países em que o setor público gasta menos do que o privado. Para o presidente do Instituto de Direito Sanitário Aplicado (Idisa) e consultor do Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (Conasems) Nelson Rodrigues dos Santos, o relatório traça um diagnóstico importante dos obstáculos para o desenvolvimento do SUS. Para ele, são quatro os principais problemas. "O primeiro deles é o subfinanciamento, mas há outros três enormes, quase tão importantes quanto esse. Eles convivem porque um alimenta o outro. O segundo é o subsídio federal de recursos públicos federais para o mercado dos planos privados; o terceiro, que está muito atrelado ao subfinanciamento, é o impedimento de a Emenda Constitucional 29 financiar melhor o SUS; e o quarto e último obstáculo é o impedimento de haver uma reforma democrática e administrativa do Estado para ele poder gastar melhor o dinheiro", detalha.
Para combater o problema do subfinanciamento, o relatório fala na necessidade de garantir o aumento do financiamento por parte do governo federal. De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), também presentes no relatório, em 1980, o montante do governo federal destinado à saúde representava 75% do total do gasto público com o setor, em 2010 essa porcentagem caiu para 44%. "Com isso, os estados e municípios, que aplicavam apenas 25% do total, tiveram que subir esse recurso e em 2010 passaram a arcar com 56%. Há um outro dado fundamental no relatório que é o do investimento per capita público em saúde, medido pela OMS. O Brasil tem um per capita público de 385 dólares por brasileiro ano, e a média dos países que têm bons sistemas públicos é de 2530 dólares por ano. Todos esses dados mostram que o governo insiste em retrair e subfinanciar o SUS durante os 21 anos de existência do Sistema", comenta Nelson. O relatório confirma a percepção do professor: "Os debates em nossas reuniões de trabalho sedimentaram a posição de que, salvo algumas exceções, o grande incremento nos gastos com a área da saúde vieram da vinculação orçamentária de Estados e Municípios. A União, nesse tocante, ficou a desejar".
O professor avalia que desde o surgimento do SUS o governo federal tenta impedir a regulamentação do próprio percentual que deve aplicar na saúde e que atualmente a conjuntura não é diferente. É justamente essa discussão que está em curso hoje no Senado, com a regulamentação da Emenda Constitucional 29. "A área econômica do Estado continua a mesma, sempre pressionando para só colocar os 10% da receita corrente bruta da União se houver a criação de novos impostos, o que, para nós, é uma posição atrasada, anti-social, de entrega da soberania nacional para a voracidade do sistema financeiro. Em 2010, 44,9% do orçamento da União foi para pagar juros da dívida pública, amortizações e refinanciamento da dívida. Lá em baixo estão os gastos com a saúde, com 3,4% do orçamento, a educação com 2,8%, a segurança pública com 0,5%, os transportes com 0,04%. Essa voracidade do sistema financeiro está estabelecendo uma ditadura na área econômica do Estado brasileiro nesses 20 anos O governo federal não vem tendo força, caiu de joelhos perante essa pressão, prejudicando tanto a área social, como também a área de infraestrutura do desenvolvimento", destaca. (Leia mais sobre a regulamentação da Emenda Constitucional 29 e o financiamento da saúde).
‘Beneficiômetro'
Para Elias Jorge, professor da Universidade Federal de Minas Gerais e especialista em financiamento da saúde, além da exigência de mais recursos para a área , é preciso ter clareza da necessidade de não fazer "mais do mesmo" com esse aporte financeiro. "O que eu chamo de diferente é a aplicação intensiva em atenção primária e atenção básica, o uso intensivo das teorias gerais da administração, de organização e métodos, dos instrumentais de economia da saúde no processo de gestão, a remuneração adequada dos profissionais da saúde, a profissionalização da gestão, ou seja, um conjunto de ações fundamentais para poder melhorar a essência do recurso utilizado e ao mesmo tempo trabalhar na direção de aumentar o recurso", explica.
O professor propõe uma nova ferramenta para ajudar nesse processo: o beneficiômetro. Ele explica: "a população precisa ter conhecimento regular e sistemático sobre o que é feito com o recurso que é arrecadado. Da mesma maneira que a Fiesp e associações comerciais mantêm o impostômetro para dizer que o Estado é caro, que é absurdo haver tantos impostos, nós, que defendemos uma sociedade solidária, precisamos explicitar o que é o fundamento da seguridade social, na qual, por interveniência do Estado, é extraído de cada um segundo a sua capacidade para oferecer a cada um segundo a sua necessidade. Então, da mesma maneira que fica a maquininha mostrando o quanto foi arrecadado de impostos, precisamos dizer quantas consultas são feitas por hora, quantos exames laboratoriais, quantas vacinas, quantas merendas escolares são fornecidas com o dinheiro dos impostos que são arrecadados da população, quantos pagamentos de salário, quantos auxílio-alimentação, quantas bolsa-família, quantos aposentadorias do setor público, quantas aposentadorias do setor privado. Ou seja, mostrar o que é feito com o dinheiro público arrecadado em cima desses cinco pilares - saúde, previdência, assistência social, trabalho e educação - da proteção social do Brasil".
Reforma democrática e administrativa do Estado
Para Nelson dos Santos, também é preciso "fazer diferente" com os recursos públicos, mas o professor defende que é necessário fazer uma reforma democrática e administrativa do Estado. "Desde que foi aprovada a Constituição, o movimento da reforma sanitária e todos os movimentos democráticos no Brasil pressionam para haver essa reforma para tornar o Estado mais eficiente na gestão e gerenciamento da prestação de serviços públicos. O Estado tem uma herança secular de ser extremamente burocratizado, lento, patrimonialista, com uma estrutura administrativa que não consegue gastar com eficiência e agilidade os recursos públicos na prestação de serviços públicos. Esse Estado requer uma reforma que está sendo devida para a sociedade", salienta.
Elias Jorge acredita que é possível trabalhar a estrutura administrativa já existente garantindo mais eficiência a alguns instrumentos de gestão. Ele exemplifica: "Poderíamos ter bancos de preço operantes para articular as compras, um catálogo de materiais, ou seja, o uso intensivo desses instrumentais com a estrutura que nós temos. Um banco de preços só tem sentido se ele for alimentado, se todos os compradores públicos o alimentarem, aí se passa a ter uma referência fantástica para aquisição de equipamentos, medicamentos, etc. Se existe um catálogo de material, só se pode fazer compra segundo aqueles itens que estiverem catalogados, que são rigorosamente informados. Outra iniciativa seria criar núcleos de economia da saúde para dar suporte à tomada de decisões, utilizar coisas que são antigas, de teoria geral de administração, de organização e método para funcionamento das estruturas, um conjunto de coisas que pode ser implementado com o que nós temos. Mas óbvio que para isso tem que ter política de pessoal, política salarial, ou seja, questões que compõem um todo de intervenção a ser feita", diz.
SUS longe de ser o SUS constitucional
O relatório propõe um retorno à origem do SUS para que sejam efetuadas as mudanças necessárias para garantir um sistema de saúde de fato universal e de qualidade. Para Nelson dos Santos, o país se afasta cada vez mais desse SUS constitucional. O professor comenta que essas dificuldades do Estado para gerir os serviços públicos, entre eles o SUS, é o que dá margem para propostas de privatização, como o estabelecimento de Organizações Sociais da Saúde (OSs) e a expansão cada vez maior da saúde privada. Ele chama essas propostas de mudança de gestão do modelo da saúde, como as OS e fundações de apoio, de "escapismos". "São verdadeiras válvulas de escape para favorecer entidades privadas que pressionam pela privatização dos SUS, para fazer de conta que os governos estão fazendo o SUS", afirma. "O próprio governo admite que é incompetente para gerenciar e que, como há um ente privado que é mais competente, entrega para um ente privado esse gerenciamento. Esse governo está abdicando até de ser governo. Com essa postura se vai cada vez mais longe do SUS constitucional", completa.
Elias Jorge reforça que os planos privados só existem no Brasil porque coexistem com um Sistema Universal como o SUS. "Esses sistemas suplementares sobreviveriam sem o SUS? Não, eles vivem do usufruto do SUS, só se viabilizam porque existe do lado o SUS fazendo uma série de ações pelas quais eles não respondem, por exemplo, as ações de saúde coletiva em geral, qualidade da água, dos alimentos, vigilância sanitária, ambiental, etc. Eles acabam sendo um fator permanente de sangria dos setor público, não só pela demanda dos seus segurados em cima do SUS, que é um direito legítimo que eles têm, mas pelas renúncias fiscais que tendem a ficar cada vez maiores", destaca.
O Ministério da Saúde foi procurado para comentar o relatório, mas respondeu, via assessoria de imprensa, que não teria disponibilidade para conceder uma entrevista nesse momento devido à realização da 14ª Conferência Nacional de Saúde (14ª CNS). O tema da Conferência é justamente a universalidade do sistema de saúde brasileiro - ‘Todos usam o SUS! SUS na Seguridade Social, Política Pública, Patrimônio do Povo Brasileiro' - sobre o qual Nelson dos Santos faz um alerta: "Nesses 20 anos do SUS, a universalidade caminhou para trás. Toda a classe média brasileira e os trabalhadores sindicalizados têm planos privados. Os dissídios entre empregados e empregadores nesses 21 anos colocam o plano privado com um dos primeiros pleitos. A totalidade dos trabalhadores públicos federais também está com planos privados, em parte subsidiados pelos recursos públicos federais. Então, a marcha da universalidade está no sentido contrário. O SUS está ficando só com os pobres que não têm condições de comprar plano privado, cerca de 75% da população. A verdadeira política do Estado nesses 21 anos do SUS é uma política de fazer um SUS pobre para os pobres, porque o mesmo Estado está subsidiando os plano privados e já empurrou a classe média e os trabalhadores para os planos privados. Não foi isso que a Constituição decidiu. Nos anos 80, a sociedade decidiu por um sistema público, universal e de qualidade para toda a sociedade".
1.Relatório aponta soluções para financiamento do SUS

Por Raquel Júnia
Fonte: Adital

Ator Global,Sérgio Marone, em Altamira




Rio Campus-UFPA 
O ator Sérgio Marone está em Altamira por fazer parte do Movimento Gota D’água, que se propõe a lutar contra Belo Monte. O intuito de é de acompanhar a mobilização indígena e discutir os problemas referentes à Belo Monte com as populações locais.

Por Maria Fernanda Linhares